Contos
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Algum ato de coragem
(…) fui correndo pro quarto e vi que o meu pai estava com os olhos duros olhando pra mim, e eu fiquei parado na porta do quarto pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente. João Gilberto Noll, em O cego e a dançarina. 1 Minha boca está seca. Não consigo produzir saliva que me Continue reading
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Filosofia da adúltera
“Há uma diferença entre trair pelo sexo e por amor. Por amor, a adúltera se deixa varar pelas balas; pelo sexo, ela foge e pula pela janela”. Luiz Felipe Pondé, em Filosofia da Adúltera. Este texto teve poucas alterações deste que foi escrito em 2003. Esta pode ser mais uma delas. Estamos em 2006 e Continue reading
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Entre olhares e ausência de palavras
“A violência é como a poesia, não de corrige”. Roberto Bolaño, em A universidade desconhecida. Como funciona o embate com olhares e palavras? O que é mais importante caso a vida se assemelhasse a um jogo e que jogo seria? Por certo, uns dirão, é um jogo de poder. Contudo, dispomos até que ponto de Continue reading
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Deus odeia todos nós
“Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?” Douglas Adams, em O Guia do Mochileiro das Galáxias. Digitou uma frase no Google, mas não parou ao final, escrevia como se contasse uma história. Permaneceu alguns segundos observando o que aconteceria. A tela não Continue reading
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Alguns homens são melhores quando mortos
“E o segredo é que isso machuca cada vez menos, até o ponto em que você não sente mais nada”. Chuck Palahniuk, em Sobrevivente. No dia em que perdi minha mãe, após o impacto comum de quando se recebe uma notícia dessas, veio-me o pensamento de que também perdi meu pai mesmo antes de saber Continue reading
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O caos e a letra
“Filhos de mães ainda vivas, não esqueçam mais que suas mães são mortais”. Albert Cohen, em O livro de minha mãe. Meu nome é Carlos, mas podem me chamar de Karl. Em literatura existe muita mentira, como numa vida. Como numa vida inteira, como num amor, quanto mais num amor pela letra, quanto mais num Continue reading
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A genealogia moral
“Somos uma família estranha. Neste país onde as coisas se fazem por obrigação ou fanfarronada, gostamos das ocupações livres, das tarefas sem importância, dos simulacros que de nada adiantam”. Julio Cortázar, em Histórias de cronópios e de famas. O importante, afinal de contas, é saber quem você é. Não que isso implique saber muita coisa, Continue reading
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Space child ages as he turns and faces the lie
“Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles”. André Dahmer, Continue reading
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Condições inegociáveis da minha morte
“Esta manhã, pela primeira vez, ocorreu-me a ideia de que meu corpo, este fiel companheiro, este amigo mais seguro e mais meu conhecido do que minha própria alma, não é senão um monstro sorrateiro que acabará por devorar seu próprio dono”. Marguerite Yourcenar, em Memórias de Adriano. Este título fala da necessidade de me posicionar Continue reading
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A inútil vontade dos mortos
“Aconteceu em um domingo. As coisas terríveis sempre acontecem aos domingos”. David Gilmour, em A perfeita ordem das coisas. O homem tem quase sessenta anos e guarda ainda a imagem de si como tendo algum vigor, que se pega no final da tarde, esperando que a escuridão possa manifestar-se com alguma resposta para sua insistência. Continue reading
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A natureza das coisas que acabam
“Viver parece-me um erro metafísico da matéria”. Fernando Pessoa, em O livro do desassossego. Todos vamos morrer num dia comum, um lapso um pouco mais curto que o habitual, num acontecimento aferido de tanto mistério e indeterminação, que talvez não declaremos a percepção dos sinais preparatórios. Este dia será marcado por uma sutileza. Essa palavra Continue reading
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A vida não é um relógio que se ajusta cinco minutos
“Não há amor de viver sem desespero de viver”. Albert Camus, em O avesso e o direito. Não são raros os momentos em que a vida caminha para lugares inesperados, rumando à desordem, quando se percebe a total ausência de controle. Ninguém acorda com trinta e cinco anos. Isso porque a vida não é um Continue reading
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A vida é bela porque acaba
“Na frente do espelho olhei minhas olheiras fundas, a pele toda escamada, os lábios ressequidos, enfiei a língua pela cárie inflamada de um dente, pensei que não adiantava nada eu permanecer aqui, contabilizando sinais de que o meu corpo estava se deteriorando. Tinha chegado a hora de eu partir”. João Gilberto Noll, em Hotel Atlântico. Continue reading
