“Há uma diferença entre trair pelo sexo e por amor. Por amor, a adúltera se deixa varar pelas balas; pelo sexo, ela foge e pula pela janela”.
Luiz Felipe Pondé, em Filosofia da Adúltera.
Este texto teve poucas alterações deste que foi escrito em 2003. Esta pode ser mais uma delas. Estamos em 2006 e na época tinha um relacionamento sem muito sentido com uma mulher casada. Longe de expor os motivos da escrita, certamente o fragmento aduz a uma possibilidade de escolha que se faz algumas vezes na vida. E, feito para compor uma coletânea a ser publicada, entre tantos, será excluído da versão final, tenho quase certeza.
Ela tinha vinte e seis anos e se lamentava não ter continuado o curso de história na universidade. Toda vez era uma conversa semelhante, já havia percebido e não me importava mais. Já fazia um ano aquilo tudo, era um relacionamento complicado, num adultério, necessariamente, todas as pessoas se enganam, uma vez disse um poeta, eu sabia, era leitor de poesia.
O difícil de toda a situação é quando se está envolvido demais para não se perceber os perigos. As pessoas não fazem a análise das consequências de seus atos, como uma metodologia. Por isso tinha uma noção do que poderia acontecer. As guerras, necessariamente, surgiam sempre de um ato impensado, ou que, mesmo planejado, tinham em si o germe das consciências cheias de erro. Mas naquela época eu parecia não me importar, afinal, desde o dia em que aquela mulher havia entrado em meu carro pela primeira vez, sugando-me com todo o vigor, nada caminhou mais no limite da racionalidade.
Foram alguns encontros em horários precisos, o marido trabalhava muito. Era um sujeito bom, mas que estava ocupado demais para atender ao que ela esperava. Quando se é jovem as coisas são intensas demais. O sexo tem que ter a potencialidade precisa que faça a vida valer a pena. Ela sempre soube que o casamento seria melhor após o amante. Mesmo religiosa, mesmo mãe de dois, mesmo levemente culpada e envergonhada, ela prosseguia.
E eu, o que dizer? Era um homem que queria um lugar para colocar o pênis. Talvez isso defina os amantes. Não era amor. Não era amizade. Era a vontade de ter alguém à sua disposição e poder pensar sempre que quisesse, ela estaria por perto, que existia um homem em algum lugar do mundo que não imaginava que sua mulher era tomada por outro.
Esse tipo de pensamento incomum parece preencher o imaginário de homens e mulheres das muitas pessoas que conheço. Era ainda jovem, nos meus 18 anos, mas quando se destina uma atenção própria a qualquer situação, poucos são os que não revelam uma lógica, não encontram um padrão, e, uma vez inscritos nesta condição de conhecedores, carecem por se inscrever também como praticantes.
Ela odiava motéis, sempre reclamava dos espelhos. Sua imagem refletida a fazia lembrar o que ela realmente era, um animal. Um pedaço de carne e remorso, por fim. O desejo de poucos momentos de intensidade acabava após alguns minutos, depois a culpa a tomava. O corpo do amante era melhor, dizia, o do marido nem tanto, apesar de o lembrar com ternura e com sensibilidade.
Após cada gozo, uma possibilidade de lágrima que não se concretizava. Era difícil explicar a situação, complicado entender o desejo de ter outro quando a mãe sempre a ensinou que mulher tem que se comportar e respeitar o esposo. Mas era tão bom ter aqueles poucos momentos de vida. Era tão tenso e animador preparar cada saída e depois ficar pensando porque as coisas estavam acontecendo de fato.
No fim, se existe essa noção mínima, não existia motivo negativo algum para os acontecimentos. Ela entendia que tinha um corpo e fazia dele o que bem entendesse. O casamento estava longe de ser um contrato de comodato exclusivo do corpo do outro. E, embora se sentisse ferida por pensar desse modo, era uma forma bem racional de olhar a realidade.
Eu, o amante, sofria. Era um homem sensível em muitos momentos de resistência. Gostava de ler livros banais e sair com mulheres que entendiam meu estilo de vida. Após cada gozo a necessidade de ruminar furtivamente o que tinha vivido nas últimas semanas. Queria provar que era bom naquilo, mas entendia que precisava de um amor para ser feliz. Não de uma amante. Precisava de amor, tal o afogado anseia por oxigênio, e, para não fugir das metáforas dramáticas, precisava me afogar nesse amor ainda inexistente.
Em certas ocasiões, ávido em transformar qualquer pessoa em minha necessidade, trazia algum comentário mais obliquo, atravessando a situação e a tensão de um momento ritmado por sua natureza. Comentava sobre leituras e filmes que iriam entrar na lista dos que seriam indicados ao Oscar, mesmo que isso não despertasse atenção alguma por parte dela. Ia jogando meus assuntos, tentando expor minhas necessidades, como ela também fazia.
No fim de tudo, difícil não imaginar que tínhamos uma espécie de filosofia. Uma filosofia de troca, utilitarista e mecânica, que servia para manter o castelo de ambos de pé. Um acordo de quem utiliza parte do outro sem pensar muito em questões éticas, sem aludir a planos religiosos ou meios físicos de retribuição.
Se pensar no amor, em certa medida, é pensar na morte da pessoa amada em algum momento, remoendo este medo, como um bolor subindo o esôfago, não amamos um ao outro sequer um segundo. Não a imaginava morta, sem vida, enquadrada, velada, com um viúvo ao lado lamentando, de sorte que meus pensamentos em relação a ela sempre foram cheios de vida e intensidade.
Aquela mulher não morreria nunca, dependesse de minha memória. Contudo, justamente por isso volto a este apontamento neste ano de 2006. Se as visões de minha vida ficaram apontadas em diários, imperioso seria atestar o acontecido, que de extraordinário nada teve. A morte sempre é mais simples do que imaginamos, sempre mais previsível que o que se pode supor é que é implicação fatal de nosso comportamento.
Faz duas semanas, aquela mulher ainda jovem, já graduada em história e iniciando o mestrado em arqueologia, permaneceu na frente do seu amante, se deixando varar pelas balas de um revólver 38, a proteger seu amado, que tinha uma esposa que não custou em descobrir os encontros que ficaram cada vez mais descuidados à medida que o amor de verdade crescia entre o casal de amantes.
O grande drama do mundo é que as pessoas sempre querem o novo. Não importa que religião tenham, que partido político defendam, que curso terminaram na faculdade, o novo tem o poder de despertar a imaginação. Entre frases balbuciadas entre os dentes de “eu o amo”, ou mesmo “meu marido é um homem bom”, a mulher queria aquele pênis novo, queria aquela experiência até o momento em que não suportasse mais ter a mesma coisa.
Não disse, mas há um ano eu tinha pulado por uma janela, não me importando com a confusão que deixei para trás, alheio à bagunça criada entre as vidas de outras pessoas, algo que custo a recordar, mas cuja lembrança escapa, invadindo-me, como água. Ela não teve a mesma sorte, quedou-se sem vida no azulejo que escolheram antes de casar, aquele que imitava a cor da areia das praias onde passou a infância. Ele, tentou varar a cabeça com outro tiro no mesmo instante, não tendo a melhor perícia, o projétil entrou numa diagonal perfeita a desviar qualquer possibilidade de morte. Apesar dos ossos quebrados e alguns anos no presídio, hoje trocamos olhares no supermercado.
De A natureza das coisas que acabam (não-edições, 2024).

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