“Filhos de mães ainda vivas, não esqueçam mais que suas mães são mortais”.
Albert Cohen, em O livro de minha mãe.
Meu nome é Carlos, mas podem me chamar de Karl. Em literatura existe muita mentira, como numa vida. Como numa vida inteira, como num amor, quanto mais num amor pela letra, quanto mais num amor pelo caos. Foi comigo assim desde menino, ora amava a letra, ora apreciava o caos. Queria quebrar pelo braço a palavra, subverter ao pensamento a escrita até que me fosse útil dizer. Até chegar um dia desses qualquer de chuva à toa em que a gente sabe da impossibilidade de todas as coisas. A descoberta das impossibilidades, como um pequeno pássaro de asa quebrada que será devorado por um gatinho igualmente meigo.
A ilusão das horas reclama discípulos, nego a passagem dos ponteiros e sinto a dor dos dentes finos entrando em minhas costelas. A letra em minha vida tem nome, que não posso dizer, ou posso, mas não diria muito, assim como tem data, que também importa pouco, num dia qualquer de qualquer ano sem importância eu escrevi o primeiro verso, que se perdeu pelo tempo, como as lembranças perfeitas de pessoas de antigamente, que fluíram numa prosa insuspeita e tonta, que em sua substância tinha muito que se assemelhar ao caos. Foi quando disse amém.
A primeira mulher, que me tomou em suas mãos calejadas e o primeiro homem, que talvez nem tenha sabido de minha existência. Mas como disse antes, sou Karl e me estabeleci numa cidade perfeita denominada Rio Branco. Lugar de pessoas de olhares profundos e crianças adultas. As ruas tem curvas intensas, como os rios que são como cobras dentro da selva, desenhando um risco sinuoso que pode chegar em qualquer lugar do mundo. As águas barrentas são fluxos de uma natureza ferida, como as pessoas que presenciam o correr bravio de uma série de engrenagens cortantes. Penso, logo sinto.
O primeiro homem força uma passagem na ruptura do nada e me constrange a abandonar de uma vez por todas a narrativa, até que morre com o estômago cheio de cocaína. A primeira mulher, que me transpassa, reclama sua voz silenciada e eu me calo. Já não falo por mim, como quem toma em suas mãos uma voz que não é sua, mas que poderia ser, um coração que ainda não sangra, mas bem que poderia sangrar, persisto no ato dilacerado de calar enquanto ela simplesmente fala. Sem julgamentos, sem ódios ou paixões mais intensas, apenas impressões. Não o que foi ou poderia ter sido, mas o que realmente importa. Fragmentos do que somos frente ao nada silencioso da vida. Como quem toma em suas mãos uma flor para despetalá-la.
Onde começa o que passou e o que posso dizer que passou eu bem não sei. Não que aja um segredo escondido nos anos, que não há. Mas cinquenta anos ajudam o organismo biológico a reclamar muito da memória utilizada. Ou mesmo que aja até segredos, mas que por sua inutilidade e corrosão já não importam mais, pois sei que tudo e a tudo cura o tempo, sem distinção, já os possa ter esquecido ou não querer lembrá-los, conservando-me numa posição muito cômoda em relação ao que preciso contar.
Memórias de uma mulher no tempo, que não há mais nada com tal força, que possa provocar incisões no nada, cortes na carne e silêncios cada vez mais ocultos. Porque com mulheres parecem ganhar mais detalhes mínimos as palavras, as frases surgem mais prolongadas e a beleza aparece com uma espécie de fixidez ácida e fluída. Descrever criaturas fica mais fácil, principalmente as mortas, que os anos fizeram adubo, que hoje são apenas lembranças em pó, sem certeza que ocorreram de verdade.
Nasci num tempo denominado mil novecentos e sessenta e dois. Em mil novecentos e oitenta e quatro nasceu Karl, fruto da complexidade e do vazio, do desejo e da banalidade das sensações humanas misturadas com alguma quantidade insignificante de entorpecentes. Nasceu para ser banal também, como lhe acreditavam todas as pessoas do mundo. Para ser adepto da mesma cocaína que lhe deu vida nos primeiros tempos e para está destinado ao mesmo lago de sangue que poderia explodir em sua cabeça a qualquer momento.
Nasceu para isso. Tão esplendidamente feio, uma criatura completamente desproporcional que se não o tivesse visto sair de dentro de mim o teria tido como uma anomalia, como uma aberração da natureza, aquele ser branco e sem sal, de pés, orelhas e cabeça grandes, como um boneco de pano, que se dá para brincar a uma criança. Não tão especial como era de se esperar, desajeitado, que chorava demais pelos motivos mais insignificantes, pelas horas mais impróprias, porém nunca o tive como bastardo nem em mim foi gerada uma vontade de matá-lo.
O mundo o poderia ter tido, mas eu não, sua mãe, era divino criar os filhos, como Maria criou o Cristo, seguia em minha sina, que depois de alguns anos, tive como missão na vida. Karl era pra ser isso mesmo, nem mais nem menos, que hoje me contento com o que é, mesmo não sendo nada ainda. Era pra ser homem, casar, ter filhos e viver, requisitos que tem feito ou estar em processo de fazer, que nessa vida tudo custa o tempo que deveria mesmo custar, não há tempo perdido, como cantavam os jovens de minha época. Tempo perdido é tempo sem custo, não podemos dizer que existe.
Antes que se apague de minha memória o que realmente importa, se é que se apaga de nós o que importa, devo começar do começo. Não sou ninguém, uma novidade até óbvia, mas sou quem pode assumir o lugar da história e dizer que vivi, confessar as andanças e decisões, pois vivi e não nego, apenas confirmo. A imagem antiga que tenho é que sou estabelecida dentro de um casarão de paxiúba, que é uma fibra amazônica que nos servia para fazer moradias, construir coisas de guardar coisas e lugares do espaço para prender animais de comer e andar em cima.
Minha infância é repleta das visões da paxiúba, de como era bonita quando virava uma casa, de como era bom olhar por suas enormes frestas o vento no ar e de como o frio entrava sem pena de nossa pele. A cor da secura criada pelo passar das horas me acostumava, que numa vida de coisa inúteis, por que as conservar se não fossem de algum valor? Assim como são as pessoas, que quando não mais somos úteis, por que nos guardar? Creio que nossas vidas sejam um repositório dos questionamentos e lamentações, que no fundo fazem bem, mas que não podem nos levar um centímetro à frente.
Então você mora e habita num universo de fibra e pouca comida, onde animais andam com cuidado, sob a pena de não durarem muito, até que você come demais, que não deixa o suficiente para os outros também comerem demais. Eu tinha doze anos e dez irmãos, o que pode gerar todas as justificativas do mundo. Eu comia em todas as refeições banana prata verde cozida com farinha, único grão farto em minha vida de seringueira, disponível à vontade, enquanto se tivesse a coragem de plantar.
Mas chega-se o dia, para os que tem muita sorte, que não se pertence mais à infância, você é mulher feita agora e precisa tomar o seu rumo, por isso tem um barco, que vai bem conduzido, apesar de chegar um frio e você ter pouca roupa, é melhor que ficar aqui. Chorei, mas embarquei. Junto a outros sete passageiros homens para uma viagem de três dias rio abaixo com doze anos de idade e sozinha comigo mesma.
Era frio e eu tremia, tomei o caminho diverso dos outros e segui os planos de um Deus que tem muitos planos indistinguíveis. Cerrei os dentes e desviei os olhares, cobri as pernas e engoli as lágrimas que caiam dos meus olhos e confundiam com a água da chuva. Não cheguei a olhar para trás, que nessa vida já chega o que naturalmente enfrentamos quanto mais nossa própria fraqueza. Era um tempo de diversos começos, histórias embaladas pela ausência e regadas pelo desespero que se engolia a ponto de vomitá-lo todos os dias. Uma dor que não fica extinta, sobrevivendo ativa desde sempre. Todo santo dia.
De A natureza das coisas que acabam (não-edições, 2024).

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